Entrelinhas ágeis: Perto x Longe

Os princípios e metodologias ágeis tem premissas lastreadas em teorias e práticas que garantem a potencialização da colaboração e aprendizado, de forma que retroalimente o processo, melhorando continuamente seu ecossistema. São conceitos ocultos nas entrelinhas, por tras dos ciclos iterativo-incrementais(-articulados).

Um deles, é que o cérebro humano lida diferente com o curto, médio e longo prazo, Perto ou Longe. Existem teorias, como as oriundas do campo da psicologia e neuropsicologia, que nos ajudam a entender e potencializar nossos resultados a partir disso. Este conhecimento pode reduzir o stress, equilibrando e otimizando nossa atenção.

Uma viagem a Paris: (1) Se é daqui a 1 ano, é estratégia macro, critérios para decidir se vamos, estabelecer objetivos e termos gerais. (2) Se é em 6 meses, tenho que pesquisar, listar opções, pontos turisticos, tomar decisões habilitadoras, como aquisições antecipadas. (3) Se é em 3 meses, detalhar um pouco mais, garantir aquisições possíveis, contatos, roteiro, orçamento e pré-requisitos. (4) Em paris, é no micro, otimizando cada dia e aproveitar ao máximo.

Um novo projeto: (1) Daqui a 1 ano, roadmap e portfólio, visão geral, estratégia, justificativas e priorização, custos e benefícios gerais. (2) Daqui a 6 meses, refinar um pouco, falar com stakeholders, plano macro, fases, premissas e restrições que corroborem sua prioridade e expectativas. (3) A 3 meses, planejar iterações, metas, é aqui que rola uma Inception. (4) Na iteração, dual track, detalhar e modelar a próxima, enquanto executa e entrega a atual.

Em empresas, temos o Planejamento Estratégico, Roadmap, planejamento de pequenos projetos (fases), planejamento de iterações e desenvolvimento (execução), são diferentes níveis e granularidade de detalhamento, do macro ao micro. Do objetivo estratégico a temas de negócio, de épicos a histórias, especificação e tarefas.

No aspecto de estimativas, há diferentes níveis de dimensionamento e planejamento, sempre houve. Desde um Nível 0 (zero) para estimar o tamanho a nível de Fase (projeto), Módulo ou Épico, passando por estimativas baseadas em comparações, experiência ou volumetria, até o refinamento e planejamento final.

Na verdade, entrelinhas são mediadores e moderadores do sucesso do Ágil, assim como os princípios, materializam-se tanto através de mindset e atitude em boas práticas. São soft skills, assim como o Perto e Longe, acabam sendo ocultadas pela priorização do Como em detrimento do Porque, acabam se perdendo em meio a hard skills.

Alguns conceitos que sustentam esta forma de pensar no Ágil:

ÁGIL / Hierarchical Breakdown (decomposição progressiva) – Visão sistêmica, gradual e evolutiva, do geral ao detalhado, modular e gradual – PE, RoadMap, Fases, Projeto, Iterações e Execução;

ÁGIL / Small Project Philosophy (programas e pequenos projetos) – Trabalhar pequenos projetos, os grandes são quebrados em pequenos, evoluindo um por vez, conforme valor agregado. Teto médio é 3 meses;

ÁGIL / Cone of Uncertainty (cone das incertezas) – A antecipação desnecessária de detalhes futuros gera custos ocultos, este “estoque” gera retrabalho, desperdício e perda de foco no Perto para algo ainda Longe;

ÁGIL / Last Responsible Moment (último momento responsável) – Deixe para decidir quando realmente necessário, do macro ao micro, passo a passo, convertendo aprendizados acumulados em passos cada vez mais assertivos;

ÁGIL / Dual e Triple Track – A abordagem de Jeff Paton e Paulo Caroli prevê um planejamento de alto nível, que vai sendo revisado, refinado e detalhado a medida que avança, é executado e gera aprendizados;

ÁGIL / DoR e Upstream – Um planejamento em alto nível gera o product backlog, existe um momento certo para o detalhamento, quer seja no Refinamento e DoR do Scrum ou no Upstream do Kanban.

Teorias da psicologia e neuropsicologia que sustentam o Perto x Longe:

Self-Efficacy (autoeficácia) Albert Bandura – Confiança na sua capacidade aumenta por experiências de domínio (vitórias). Atingir uma meta Perto (curto prazo), eleva sua confiança e taxa de sucesso nos próximos;

Goal-Gradient Hypothesis (teoria da redução da distância da meta) Clark Hull – O engajamento (adrenalina) aumenta quanto mais Perto da linha de chegada. Objetivos de curto prazo instiga mais tempo em alta produtividade;

Self-determination Theory (teoria da auto-determinação) Deci e Ryan – Metas Perto (frequentes) transformam a motivação extrínseca (obrigação) em intrínseca (prazer), que é o nível mais alto de engajamento;

Flow (teoria do fluxo) Csikszentmihalyi – Estado mental imerso em uma atividade com alta performance. Metas Longe (longo prazo) são abstratas para gerar Flow, Perto (curto prazo) são ideais para isso;

Stress, Appraisal, and Coping (teoria da avaliação cognitiva e stress) Lazarus e Folkman – O cérebro avalia o Longe (longo prazo) como ameaças, objetivos Perto (curto prazo) são avaliados como desafios superáveis;

Mecanismo Neurobiológico de Dopamina (sistema de recompensa) – A neurociência e a psicologia do hábito em relação ao neurotransmissor dopamina. Metas Perto batidas, liberam dopamina como recompensa;

Hierarchical Goal Theory (teoria da construção de metas hierárquicas) Carver e Scheier – Metas tem hierarquia, as Longe (longo prazo) gera sentido, enquanto as Perto (curto prazo) fornece tração e energia diária;

Construal Level Theory (teoria da construção mental) Trope e Liberman – Na psicologia social a mente diferencia o tempo e o engajamento. O Longe (longo prazo) é abstrato e o Perto (curto prazo) tem clara e concreta;

The Ambidextrous Organization (Ambidestria Cognitiva) Duncan, Tushman e O’Reilly – Na neuropsicologia, o cérebro alterna o foco entre presente e futuro. É preciso ter consciência e sistematizar o Perto e o Longe.

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