Sobram operários e faltam filósofos na era do conhecimento

Reedito um post sobre a importância do equilíbrio entre inspiração e transpiração … acima de tudo, conhecer-se um pouco mais a cada passo, sempre certos de que somos seres sociais, logo, o coletivo em equidade precisam ser compreendidos.

filosofia surgiu na Grécia antiga e significa “amor à sabedoria”, estudando os princípios de nossa existência, abrangia todas as formas de estudos teóricos relacionados ao conhecimento, princípios e valores humanos, a mente e seus pensamentos, a verdade e o “ser”.

A escola Platônica (348 AC) estava apoiada no conceito de que existem dois mundos, um real onde vivemos e percebemos através de nossos sentidos e outro das idéias, inteligível, posto que só é possível chegarmos nele através do pensamento, pelo ato de filosofar – “Você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa.

Aristóteles (384 AC) afirmava que a filosofia estudava uma só realidade, um único mundo, estudando suas causas e princípios fundamentais, universalista, holísticamente, com o objetivo de entendê-lo em sua plenitude, mas sem aventurar-se a resolver nenhuma de suas partes, responsabilidade das outras ciências, artes e ofícios – Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é um modo de agir, mas um hábito.

Sócrates (469 AC) propôs o Método Socrático ou Maiêutica, baseado na necessidade de se questionar todos os porquês. A cada resposta, novas perguntas deveriam ser formuladas, objetivas e subjetivas, sobre seu entorno, até chegarmos à melhor resposta, sempre limitada pelo nosso intelecto – “Só sei que nada sei, e o fato de saber isso me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa.

O significado de Maiêutica (parteira em grego), decorre da nossa atitude em ajudar o parto do conhecimento, pois ele já está dentro de cada um de nós, a filosofia apenas nos faz ganhar consciência daquilo que somos e podemos saber. É preciso exercitar o saber que está dentro de nós, em relação a tudo que nos cerca e a nós mesmos, mais e mais.

Modelo mental a ser revertido

Já escrevi várias vezes sobre o valor do questionamento e real entendimento, atitude ágil aderente a filosofia socrática, não aceitar nem em si e nem nos outros algo sem refletir, desconstruir pressupostos e reconstruí-los sobre novos prismas. Postura esperada desde a visão, planning, daily, review e retrospectiva, não deveria existir respostas como “porque sim!”, “estou mandando!”, “isso é valor pra mim!”, “estamos perdendo tempo, faz o que mandei!” …

Via de regra, empresas fazem cursos sobre metodologias “maiêuticas”, mas se recusam a ter filósofos, não entendendo ou não acreditando que o método fará com que este processo intelectual gere melhores resultados. A cada ciclo, a atitude esperada é proporcionar um debate construtivo, no campo das idéias, é a contraposição de idéias e argumentos que geram soluções mais robusta e de valor, sobretudo porque gera a valorização do senso de pertença em todos os envolvidos.

O oposto disto é Taylorista, é a arrogância de alguém que acha que sabe muito mais que os outros e não aceita questionamentos ou “críticas” as suas idéias. Segundo a administração clássica só quem deve pensar e decidir é o gerente, restando aos “operários” executar, ao pensar perdem produtividade, pois no Taylorismo são pagos “apenas” para executar o mais rápido possível.

O resultado disto é debatido desde os meados do século XX, sem saber o que e o porque das coisas, não agregamos paixão no trabalho, é tudo meia-boca, sem senso de pertença e auto-organização desperdiçamos profissionais do conhecimento em prol de operários padrão, o capital intelectual vai-se pelo ralo e zonas de conforto se estabelecem:

linha de produção

Precisamos aprender a lidar com perguntas, respostas, argumentações e limites, valor e desperdício, saber lidar com isso, quer com o cliente, fornecedor, chefe ou colegas. Equidade é a chave, equilíbrio, mas só há uma forma de aprender a Maiêutica, é preciso aprender e melhorar fazendo, com cada erro e acerto.

Desafio do século XXI? Precisamos de mais filósofos e menos operários … Os métodos e técnicas contemporâneas nos ajudam nisto, propondo técnicas para que a filosofia não disperse energia em vão. Momentos de ideação seguidos de tomada de decisão, design thinking, lean startup, scrum, kanban, lean office, art of hosting.

A definição que eu mais curto sobre auto-organização é a que explica que auto-organizar-se é tender ao caos, para no limiar deste, na borda, encontrar o caminho de forma construtiva, coletiva, racional … é filosofia aplicada na geração de valor:

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8 comentários sobre “Sobram operários e faltam filósofos na era do conhecimento

  1. Esse é o meu mais novo post favorito, Kotick. Acho que esse trecho siintetiza tudo: “Precisamos aprender a lidar com perguntas, respostas, argumentações e limites, valor e desperdício”.

  2. Agora sobre Taylor, é preciso destacar alguns pontos. Antes de mais nada, eu li os livros que ele escreveu – existem de graça por aí e são excelente leitura.

    A essência do trabalho de Taylor é Ciência aplicada à administração de empresas. Ciência no sentido de tomar decisões a partir de fatos, ao invés de a partir de intuições ou opiniões. Logo no início do livro ele explica que sempre discordou da atitude de se fazer algo de certo modo simplesmente porque sempre foi feito daquele jeito/não há outra forma.

    Até Taylor publicar seu primeiro trabalho, na virada do século XVIII para o XIX (1700-1800), não existia ciência na forma como as empresas eram tocadas. Existia educação formal, claro, mas a estratégia administrativa era definida por profissionais empossados com mandatos para tomar as decisões como bem entendessem. O segredo de uma empresa de sucesso era tido como conseguir encontrar a pessoa que soubesse fazer isso melhor. Acreditava-se que ou o sujeito sabia o que estava fazendo, ou não, e que não era possível melhorar.

    Se você ler o livro dele, vai ficar chocado com a semelhança daqueles dias com os nossos, atuais. Era comum, mais que isso, era tido como a visão “correta” da realidade, evitar estudos, análises, debate para melhorar os processos de uma empresa.

    Taylor insurgiu-se contra isso, muito à maneira que os agilistas insurgiram-se contra a ordem cascata que havia até então.

    Mais: se dependesse do ambiente à época, Taylor teria sido surrado até a morte, literalmente. 😉 Graças à visão de uns poucos empresários que lhe deram guarida para estudar e experimentar ele conseguiu melhorar a produtividade da empresa de uma forma inédita, até então tida como pura assombração, como conto-de-fadas.

    Taylor era radicalmente contra tomar uma decisão ‘ “porque sim!”, “estou mandando!”, “isso é valor pra mim!”, “estamos perdendo tempo, faz o que mandei!” ‘, usando suas próprias palavras. Taylor advogava pela causa da análise e da decisão baseada em fatos. Uma coisa que ele admitidamente professava era que apenas pessoas informadas e versadas em ciência poderiam conduzir as análises e chegar em decisões válidas. Naquele tempo, quando o operário mal-e-mal sabia ler ou escrever e apenas queriam seguir ordens, não havia o que ser aproveitado deles. Justamente por haver pouco conhecimento a ser assimilado pela linha de frente, naquela época, Sloan pôde detonar as técnicas do Taylor uns 30 anos depois, ao adotar automação, descartando aquele monte de coisas sobre análise de tempo, pressionando ainda mais as idéias da administração científica, incorporando o avanço técnológico como combustível de crescimento.

    Hoje em dia, a postura de Taylor de ignorar o conhecimento da linha de frente não se sustentaria, pelo simples fato de que, na Economia do Conhecimento, o poder está na linha de frente quase tanto quanto na estratégia, se não mais. Mas, então, talvez ele não fizesse o que fez. Não posso sugerir como Taylor se comportaria hoje, mas intuitivamente, pelos escritos dele, eu diria que ele seria um agilista. Nada sério, apenas um palpite intuitivo. 😉

    Recomendo novamente que leia os trabalhos do Taylor, são excelentes! Você vai vibrar de empolgação com a mensagem que ele passava mais de duzentos anos atrás, como eu vibro com as mensagens que você passa hoje. 🙂

    • Concordo e discordo, Taylor corretamente para a época devido a capacitação precária dos operários da industria, não estou questionando que os gerentes e engenheiros não procuravam a melhor escolha (RUP), estou dizendo que os “operários” não tinham alçada para questionar ou sugerir, há expressões famosas de seus livros em que defende a linha de comando, a necessidade de uma administração científica, racional, planejada, onde operários são comparados (não lembro em qual livro) a uma manada (bois) … Ele era tão ágil quanto o RUP ou o PMBOK, devido a serem iterativo-incrementais, mas não é o iterativo-incremental que te trona ágil, é o uso do capital intelectual, a auto-organização, ciclos curtos de aprendizado coletivo e melhoria contínua, resumindo, é Kaizen, é Gemba. Li e discuti muito Taylor no mestrado em administração … não carece, apenas estamos usando “lentes” diferentes para analisar os escritos e fatos … a última coisa que Taylor foi é agilista … de resto, foi um grande homem a sua época, um visionário que propôs algo disruptivo e inovador, uma evolução para a época dele em termos de gestão-produtiva-economico-social. Mas sua proposta era tudo isso para a virada do século XIX para o XX, o século XXI nos traz outras inspirações e realidade. Essa é minha leitura, pode estar errada, mas é fruto de muita discussão sobre o tema, eu era (pela idade) um contumaz debatedor nas aulas de TO o/

      • Legal, Kotick! Acho que é por aí mesmo. Taylor usou essa expressão, se não me engano, justamente para ilustrar um dos pontos que ele criticava à época, o “soldiering”. Ele sempre manteve, nos livros que eu li, um respeito profundo pelo empregado leal, obediente e capaz, e uma revolta incisiva e educada contra aquele que queria apenas ficar no “soldiering”.

        Como eu reforcei, há analogias entre a atitude de Taylor e do Movimento Ágil. Dadas essas analogias, se Taylor nascesse hoje, eu apostaria minhas fichas que ele quedar-se-ia do lado Ágil da vida. Ele foi contra o senso-comum daquela época, desafiando não apenas a linha de frente, mas o conhecimento professado pela elite da produção nacional.

        Apenas fiz questão de colocar essas observações porque Taylor é um dos personagens importantes naquele que é o maior ciclo de enriquecimento que a Humanidade conheceu até, a ascenção dos Estados Unidos a potência. Sua história, seus esforços têm muito a nos ensinar. Ele demonstrou aquele vigor, o sonho, aquela visão do futuro possível contra a realidade concreta, que serviu de esteio para quem quisesse perseguir o crescimento ilimitado, a melhoria como estilo de vida – como nós, ágeis, perseguimos hoje. Na minha opinião, o Movimento Ágil e Taylor são colegas da mesma classe, e não antagonistas. (Os métodos de então são hoje obsoletos, como a TV branco-e-preto também o é. O tempo passa e as coisas mudam, graças aos céus!, mas o espírito – como eu vejo – é o mesmo.) 😉

      • Cara, tu não é um filósofo, tu é um poeta 🙂 sim, em um exercicio de cenarios, pode ser que Taylor se adaptasse aos tempos de hoje … mas minhas criticas são relativas aos principios da escola Taylorista de então … mas vou pegar mais leve com ele, vou tentar, mas não garanto conseguir 😉

      • Obrigado!! Mas olhe, se tu pegares leve, eu não vou ter combustível para essa introspecção a que eu sou obrigado para responder. Continue sentando o dedo, enquanto você sentir que está certo. Se um dia os argumentos elevarem nossas percepções, o debate terá valido a pena. Até porque é essa a mensagem deste post, não? 😉 Até lá, a esgrima é revigorante. 😉

        Por outro lado, há um ponto que eu percebi agora: Taylor era questionador, ponderado e focado, ainda que obsessivo quando acreditava estar certo. Seus seguidores – os quais eu não conheço – podem muito bem ter exacerbado a parte errada da lição, e terem manchado a reputação do bom intelecto de seu mentor. Sim, a escola taylorista, ao paroxismo, deve ter gerado um bom desastre produtivo. Posso ver isso como perfeitamente provável.

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