Apenas reduzir despesas não nos safa dos desdobramentos da covid-19

Primeiro de alguns posts com reflexões práticas para encarar de frente a crise ao invés de enfiar a cabeça em um buraco feito avestruzes, começando por uma sistematização do processo de auto-conhecimento, cenários prospectivos, co-criação e experimentação:

Muitos só fazem contas, já na primeira semana iniciaram demissões e reduções de estrutura, como se fosse cada um por si, como se estivessem em um filme de náufragos, em um bote salva-vidas no meio do Atlântico, se limitando a racionar a água e comida.

Assim, negam o óbvio, PJ e PF fazem parte de um ecossistema e se cada um apenas pensar em sobreviver, o conjunto ficará cada vez mais frágil, fraco e quebradiço, gerando uma espiral descendente, um ciclo vicioso. Sem ser piegas, juntos somos mais fortes, PJ + PF.

Aprendendo com Matsushita

Reza a lenda que Matsushita, guru da gestão nos anos 20, ao enfrentar guerras e pós-guerras, reunia seus colaboradores e os instigava a fazerem todos o necessário para superarem a crise, certo de que ela passaria e ao final estariam juntos e fortes. Neste caso, se permitia a reinvenção, pelo tempo necessário, de papéis, produtos, serviços e processos.

Na prática, ele sabia que o sucesso que o trouxera até a próxima crise pouco valeria e, para não demitir ou falir, se permitia mudar, fomentando a auto-organização, mantendo todos focados na superação, deixando que os seus profissionais fossem as ruas, repensando a si mesmos, ideias, produtos, serviços, venda, marketing, produção, o que fosse necessário.

Gestão de crise – É hora de aplicar tudo o que sabemos

Até Fevereiro de 2020, usávamos desig thinking, lean startup, art of hosting, metodologias ágeis, para novos e melhores negócios, inovação, empreendedorismo, na busca por transformar-se no próximo unicórnio brasileiro. Em meio a esta crise é preciso compreender o ecossistema, ressignificar, pelo menos temporariamente, nosso propósito, negócios e portfólio.

Esta crise não vai passar em semanas, mas em meses e seus efeitos perdurarão por muito tempo, é preciso tomar consciência coletiva e gerar novos pactos, mitigar o dano no curto, médio e longo prazos. É a hora de usar toda nossa ambidestria no famoso modelo de três horizontes da McKinsey ou perderemos muito demais.

Chame seu pessoal em grupos ou todos juntos, use vídeo-chamada se possível, mas também tem whats, grupos no msg, salas virtuais, telefone e considere convidar também alguma(s) pessoa(s) acostumadas com facilitação de reuniões com foco em inovação e empreendedorismo, que dominem técnicas e ferramentas colaborativas.

1° passo – Estabeleça um só propósito coletivo

Reúna virtualmente seu pessoal, seja um líder, unifiquem um só propósito estabelecido, se reinventar para superar esta crise, desafie todos a se auto-organizarem. De forma criativa e empreendedora, incentive grupos de design sobre iniciativas de contorno e mitigação da crise, todos unidos em um único objetivo comum.

“A invencibilidade está na defesa; a possibilidade de vitória, no ataque. Quem se defende mostra que sua força é inadequada; quem ataca, mostra que ela é abundante.” – Sun Tzu foi um general, estrategista e filósofo chinês, escreveu A Arte da Guerra, composto por 13 capítulos de estratégias militares.

A priori, agora a missão é passarmos por esta crise e mantermos uma estrutura coesa de forma a que no pós-crise estejamos fortes o suficiente para imediatamente retomarmos a vida … talvez voltar ao que era, talvez melhores, talvez no mesmo segmento e negócio, talvez em outro, mas hoje o objetivo é nos mantermos firmes durante a tempestade.

2° passo – Qual é o 5w2h de nós mesmos?

Inicie alinhando e discutindo quem e o que somos, em um sentido amplo, recursos, do estoque a material, do maquinário e ferramental a expertise, conhecimentos, redes e soft-skills. Precisamos compreender tudo o que temos a nossa disposição, interna e externamente, tão importante quanto nossos recurso e conhecimentos, são parceiros e networking.

Importante – Estamos mapeando tudo o que temos e somos, por isso, é preciso estarmos abertos a TUDO e todos, não tem porque nos limitar à pessoa jurídica, mas a tudo o que sabemos ou supomos como opções, aqui cabe buscar explicitar tudo o que todos podem contribuir ou dispor, aquilo que talvez individualmente não tenha valor, mas em sinergia ganhe força e potencial.

3° passo – Cenários prospectivos e brainstorming

Proponha um debate e ideação a partir do passo 1 e 2, desafie a todos pesquisarem e idearem alternativas baseadas em cadeia de valor, usando todo e qualquer recurso disponível, o desafio é mantermos a estrutura e equipes, se possível agregando valor a todo o ecossistema. NÃo se limitando a produtos e serviços que já praticávamos, mas usando de criatividade a partir do que temos para o que podemos ser neste momento.

Mais que gemba (onde as coisas acontecem), é energizar e potencializar iniciativas que surgirão da soma de competências e vivências de cada grupo, assim surgirão ideias e oportunidades que hierarquicamente demorariam ou jamais surgiriam. Como as habilidades de cada um pode usar o maquinário de outra forma, aproveitar o material para outro fim, gerar conexões e oportunidades inusitadas.

Pipocam inovação por todo lado, vendas de vouchers antecipados de serviços para depois que a covid-19 passar, vendas online, entregas em casa, novos produtos, máscaras de pano, quiosques com auto-atendimento com itens de conveniência dentro de condomínios, … com criatividade e união a solução está nas nossas mãos!

Você já ouviu falar em coopetição, provavelmente todos ou a maioria de seu segmento estão sofrendo com o covid-19 e nestas condições é possível que se houver uma pacto entre concorrentes para redução de custos e melhores resultados. É possível que algumas das soluções seja propôr acordos e parcerias, mesmo com seus concorrentes de quadra ou bairro, reduzindo os custos e aumentando a força de atuação.

4° passo – I4A (Ideas for action) – PDCL

A partir do banco de ideias formado de forma quase anárquica, decisões precisam ser tomadas, mas urge ação, o controle de outrora precisa agora celeridade, experimentação, porque algo feito é melhor que perfeito, para tanto é preciso delegar baseado na confiança do senso comum de suas pessoas, por área, equipe, liderança, e estabelecer ciclos iterativos e fluxos de informação e reação mais que comando-controle.

Se a ideação e proposição são quase anárquicas, o plano de ação, validação, persistência ou abandono deve ser racional, porque eles usarão recursos, depositarão esperanças de mitigação, contorno, engajamento em nosso propósito comum de superar a crise e o vírus. Em ciclos diários ou semanais é preciso validar, discutir e reavaliar para tomar decisões de go-no go, mudanças, adaptação … seguir em frente.

Com certeza vai passar, e depois?

Nesta gestão de crise, os passos de 1 a 4 geram um ciclo virtuoso, erros e acertos, iterativo-incrementais, cada empresa ou grupo contribuindo para que enquanto comunidade (noções abstratas comuns a diversos indivíduos) e sociedade (agrupamento que convive em estado gregário e em colaboração mútua) estejamos o mais fortes, preparados para o pós-crise.

Matsushita no livro “Not for bread alone! A business Ethos, a Management Ethic”, alude à responsabilidade do empresário não ser só ganhar dinheiro, mas à sua responsabilidade social. Ethos na sociologia é a síntese dos costumes de um povo, caráter em coletividade, Ethic na filosofia investiga os princípios que motivam o comportamento e valores presentes em certa realidade social.

De alguma forma, fora da gestão de crise imediata, retomaremos a vida, levando todos os aprendizados e oportunidades alavancadas durante ela, algumas empresas simplesmente recomeçarão, reativarão seu portfólio, enquanto outras os terão mantido ou reinventado, reinvenção esta que poderá ser revertida em novas forças e oportunidades.

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