Gamification é um mindset natural para todos

Muitos acham que um ambiente descontraído e divertido é incompatível com o trabalho, que deve ser sério e sisudo. Por aspectos culturais seculares, se uma equipe estiver sorrindo muito e usando técnicas descontraídas durante o horário de trabalho é porque não estão produzindo, mas acima de tudo, eles não ganham para se divertir, apenas para trabalhar.

A dificuldade maior que Métodos Ágeis e Gamification enfrentam para entrar ou se consolidar nas empresas é que em pleno século XXI tem muitos executivos e gestores que só topam o jogo de esconde-esconde, preferem fazer de conta que cadeia de comando em um ambiente austero e sério significa produtividade. Na cabeça deles, descontração significa perda de controle.

Seriedade = Respeito é um produto cultural arraigado por séculos, imagine um militar, um religioso, uma esposa, um filho, um aluno no século XI nas primeiras universidades em Bolonha e Paris. A última coisa que seu “superior” esperaria ver é descontração e alegria, o “correto” é demonstrar seriedade e “respeito”, abrimos mão de fazer mais em troca de um conceito de “respeito” do século XI.

A proposta de Gamification tem o poder de reconstruir estas relações sobre um novo paradigma, substituindo uma relação de poder e dominação por outra baseada em parceria e confiança. Esta mudança já vem acontecendo em muitas frentes, algumas empresas já sacaram e aparentam ser “divertidas” para chamar e reter, alguns colaboradores aproveitam para “relaxar”, todos temos muito o que experimentar e aprender.

O caso do Lean Toyota (1950) e do Manifesto Ágil (2001)

Na década de 50 o mítico Taiichi Ohno revolucionou a indústria automobilística  e fabril com conceitos de aproveitamento do capital intelectual e social interno para uma ampla redução de desperdício e instigação da construção de valor como meta pessoal, coletiva e organizacional. A conceito Kaizen de melhorias diárias discutidas e implementadas por quem executa, o conceito de Gemba com transferência de alçada a todos para se manifestarem no momento e hora certas em que as coisas acontecem, gerando pertença e responsabilidade em todos.

Na década de 90 os métodos ágeis começaram a surgir, trazendo os mesmos princípios do Lean Toyota para a TI e seus clientes – KANBAN, SCRUM, XP, LEAN SW DEV, CRYSTAL, … em projetos de desenvolvimento de software. Mas foram além, introduzindo conceitos que mais adiante seriam definidos como Gamification, com reuniões participativas, gestão visual, auto-organizados, com avatares, dojos, hot spots, salas de descompressão, tudo isso com objetivos e metas desafiadoras propostas pelo time e acordadas com seus chefes e clientes.

O caso secular do Movimento Escoteiro

Gamification é um label interessante para algo que o escotismo usa a mais de um século, a construção de um ambiente que mistura hierarquia com diversão, ao mesmo tempo que há um coach (chefe escoteiro), há patrulha escoteiras auto-organizadas que possuem papéis, elegem seu líder, definem suas metas, sempre desafiadoras e instigantes, cabe ao coach (chefe) apenas orientar e agregar sua experiência e o papel de “juiz” quanto a vetar riscos ou imaturidades próprias da idade que possam ferir as crenças e princípios baseados em moral e ética.

Quem olha de fora, a promessa escoteira, seus valores, civismo, espiritualidade, moral, ética, … pode parecer algo militarizado, mas é o maior engano possível, pois é um movimento que mistura tudo isto com os maiores princípios da auto-organização ágil. Os jovens se manifestam, buscam fazer parte das decisões, desde os pequenos nas Rocas do Conselho, nas Côrtes de Honra, nas Comads. Liberdade com responsabilidade, Fazer o seu melhor possível, Estar sempre alerta e Servir ao próximo!

Enterprise Gamification

Basicamente trata-se do uso de técnicas típicas de jogos em outros contextos, visando fomentar engajamento, interesse, participação, pertença, conquistas, recompensas, etc. Tudo isso para a geração de um ambiente ou contexto mais lúdico, divertido, engajado, consciente ou mesmo inconscientemente.

Comunidades de Prática como o TecnoTalks são criadas internamente as empresas, uma poderosa forma de disseminar e instigar o conhecimento, mas mais que isso, fomenta a interação, o debate sobre boas práticas e novas abordagens para suas empresas, áreas, equipes e indivíduos.

Em TI, com o SCRUM e o manifesto ágil por exemplo, as principais metas continuam sendo o valor para o negócio, o cliente satisfeito, a redução de desperdícios e gargalos, a maximização da produtividade de cada um e do todo, mas tudo isso em um ambiente de integração, interação e iteratividade. Não é uma mesa de sinuca que constrói um ambiente motivado, é a liberdade com responsabilidade, esta premissa vale para TI e para toda a empresa.

Se você ainda acha que a solução é Taylorista, que funcionário bom é o que não pensa diferente, está na hora de rever seus conceitos. Lembram da citação às primeiras universidades de Bologna e París no século XI? Naquela época os alunos tinham que ficar calados, estudar e tornarem-se bons súditos, sem questionar, com certeza sem risadas em sala de aula, que era um lugar “sério”. Hoje a cada dia este paradigma cai, novas técnicas interativas, lúdicas, há propostas e projetos de Gamification na Educação … eu sou dessa tribo!

Já implantei quadros ágeis e postei aqui no blog cases em diferentes áreas da empresa, quadros, avatares, reuniões descontraídas mas responsáveis, é possível ser sério e responsável sem ser taylorista. Assim como no escotismo, não é necessário ordem unida e rabugentice para ter ou demonstrar respeito. Muito mais producente é gerar um ambiente construtivista em que cada um possa colaborar e o conjunto possa se desafiar a fazer muito mais que o esperado.

Tenho posts sobre dinâmicas laborais, desenvolvimento de equipes, sobre PDCL ágil para não TI, sobre a necessidade de entender o modelo Cynefin, o modelo de desenvolvimento de equipes de Tuckman, o modelo de Job Strain de Karasek, sobre Gamification, Agile, sobre SCRUM aplicado …

Quem me acompanha já leu muito sobre diferentes prismas de mobilização, construtivismo, auto-organização, quem chegou até aqui e é novo, entenda que um novo modelo de trabalho é possível, os resultados são melhores, mas cada um assume um papel de ainda maior responsabilidade que antes …

Cada um de nós quer crescer, ir além, quer poder pensar, quer curtir a viajem, quer interagir, fazer a diferença, ter orgulho do que faz e com quem faz … apenas cumprir ordens nos reduz a operários padrão, faremos muito bem o que nos foi mandado, mas é só o que faremos, pois não temos alçada para pensar diferente.

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