Mais uma carta aberta sobre Design Thinking

Dando uma olhada em um treinamento de Design Thinking ministrado pelo Eduardo Peres, me dei conta sobre o quanto um bom curso pode em menos de um dia passar a essência prática do modelo mental e boas práticas relacionadas a DT. Todo o treinamento segue a condução e técnicas sugerida pela Design Scholl de Stanford e IDEO em seus cursos e artigos. É um bom primeiro passo, porque não é solto, é como nossos cursos ágeis, do início ao fim é um encadeamento de exercícios específicos para cada cliente, do seu contexto, da vida real.

Mas eu vou além, peso custo-benefício, DT cotidiano, não só o disruptivo da IDEO ou brainstorming e validações de impacto do Design Council, mas o cotidiano da capacidade absortiva, da resolução de problemas, sem ouvir os pseudos-gurus do tudo ou nada, da glamourização, é aplicar no DT um modelo equivalente ao Agile Fluence Model de Shore e Larsen. Quer ser um DThinker, comece aos poucos, gere valor, ganhe créditos, vá evoluindo.

Design Thinking é muito mais que 50% dos cursos de Design Thinking oferecem, simplesmente porque 50% se esforçam para parecerem descolados e acabam sendo uma sucessão de jogos e dinâmicas que não geram nos alunos clareza em como vão resolver seus desafios da vida real após o treinamento … DT precisa ser mais que cores e purpurina disruptiva, deve ser conhecimento aplicado, tem que ter resultado, o curso versus realidade prática precisa ter MVP!

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Assim como Agile Cargo Cult (vale a pena ler se você nunca ouviu falar) é a antítese de cursos de métodos ágeis sérios, os ôba-ôbas de Design Thinking só servem para artes cênicas e glamour dos instrutores, trazendo benefícios reais às fotos e posts em redes sociais. Design Thinking é Agile, traz resultados práticos, transformação imediata, técnicas e artefatos melhores que antes, ou serão só algumas horas do recreio e depois serão esquecidos ou abandonados.

A crescente profusão de cursos e workshops de boutique são um desserviço, em meu trabalho como Agile Coach tenho convicção de que aplico este mindset, não o incensado pelos gurus e idealistas, mas com Design Thinking da vida real. Este tem a ver com timing, inve$timento, pessoas, expectativas, podemos ser sem incensar ou podem incensar sem ser.

Assim como gastar dinheiro em postits e colá-los na parede não quer dizer que entendeu e pratica KANBAN, fazer daily e trabalhar em sprints não quer dizer que entendeu e pratica SCRUM, usar lego-lego e sucata chique colorida não quer dizer que entendeu e pratica DESIGN THINKING. Os três são resultado de um modelo mental que busca o equilíbrio entre pessoas, técnicas, energia e valor, dentro do possível, iterativo-incremental-articulado, validando step-by-step.

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A seguir uma lista de técnicas que podem ser tanto grandes geradoras de muito desperdício quanto de valor, tudo depende do mindset, atitude e compromisso das pessoas que as utilizam para gerar o que de melhor pode ser gerado, de forma consciente, iterativo-incremental-articulado ou apenas mise-en-scéne.

Banco de Ideias e oportunidades – A criação momentânea ou a manutenção de um banco de ideias, oportunidades, conhecimentos, informações, é algo muito relevante para uma proposta de estabelecimento de um novo mindset e processo de trabalho mais criativo e colaborativo. O conceito pode ser voltado à técnica de funil ou processo de seleção, mas também pode ser um banco permanente que contenha inserções como comentários, complementos, lições aprendidas, etc;

Elevator Statement e Charetting – Materialize o que acham que sabem e façam sucessivos ciclos de discussão sob diferentes prismas, alterando o prisma e pressupostos. Para perceber alternativas até então ocultas, é preciso abandonar o óbvio, explorar em todas as direções, que podem ter base real ou fictícias. É fazer perguntas inesperadas, é supor bases opostas às afirmações feitas pelos clientes ou hipóteses iniciais;

5W2H e Oficina de Futuro – Duas técnicas que nos permitem e potencializam brainstormings super-dirigidos, focados, o primeiro parte de nossas dúvidas ou questionamentos, o segundo esclarece todas as percepções de problemas, desafios, oportunidades não aproveitadas. Ambas terminam por tentar obter as respostas para nossas inquietações, algumas se transformam em próximos passos e nos orientam no planejamento a partir dali;

Benchmark e Repertorização – É mais que analisar a concorrência, mas é tirar o máximo de proveito dos dados, informações e conhecimentos disponíveis sobre qualquer fonte, física ou virtual, primária ou secundária. É como um arquiteto ou estilistas que não só buscam inspiração em suas ou outras obras e coleções, mas busca inspiração nas artes, nas ruas, revistas, hoje em dia a web é ponto de partida para tudo, mas com o cuidado de não se limitar, porque o mundo real desperta outros sentidos e percepções;

Get Out Of The Building – Na maior parte das vezes a melhor forma de entender é ver, é sair do conforto da sala, do computador, da segurança da equipe, é ousar observar, perguntar, experimentar, vivenciar, é mais que entrevistas, é Gemba, é ir onde as coisas podem acontecer de verdade. Não é perguntar para pessoas que sabem o que você está fazendo ali, mas ir de encontro a pessoas que não possuem pré-conceitos e briefing sobre o assunto;

Entrevistas individuais, em grupo, focais, extremos – Todo e qualquer tipo de pesquisa deve ter uma organização prévia, não um roteiro, mas uma organização. É preciso estar preparado para tirar o máximo de proveito e informações, conhecimentos e validações. Fazê-las despreparado podem torná-la pior que inócuas, porque elas podem validar incorretamente por terem sido tendenciosas ou o improviso nos trair por displicência … entrevista não pode ser Go Horse: Prepare-se, tire a bunda da cadeira, vá a campo e entenda as pessoas;

Diário de Bordo e Observação – É a técnica de NÃO perguntar ou responder, mas registrar de todas as formas o dia-a-dia de quem você quer estudar, entender e ajudar. Como diários, fotografe, grave, filme, peça depoimentos, abstraia roteiros, registre pensamentos, insights, cenários principais versus alternativos. O diário pode ser confeccionado com as mais diferentes técnicas de registro e pode ser criado e mantido pela própria pessoa estudada ou por um observador externo, eu ou você por exemplo;

Customer Journey Map e Value Stream Mapping – Técnicas de mapas com informações úteis, mais quadradinhas nas suas origens, mas que eu uso neste novo paradigma, como um storytelling, baseado em empatia, mapeando o passo-a-passo da jornada, desde o início até o fim, do ator ou situação estudada. É como a construção de cenários possíveis, marcando o sentimento do usuário em relação a cada passo, ambiente, ferramenta, pessoas, interação, tudo;

Matriz CSD (Certezas, Suposições e Dúvidas) – Uma forma de brainstorming onde mapeamos todas as nossas certezas sobre o que estamos estudando ou nos propondo, todas as dúvidas que precisamos endereçar e sanar, enquanto suposições são tão somente ítens que vieram a tona mas que não sabemos se serão ou não úteis, podendo no futuro serem descartados, pesquisados, transformados em certezas ou convertidos em dúvidas;

Análise Causal – Exemplo de técnicas para ideação e resolução de problemas como o Managing Dojo do Manoel Pimentel, assim como os antigos diagramas Ishikawa e Pareto facilitadas de forma mais colaborativas e menos engessadas, são técnicas voltadas a identificação de efeitos x causas.

Mapas mentais – Físico ou virtual, na medida em que avançamos nossa visão sobre o tema que estamos tentando gerar empatia, entender e ajudar de alguma forma. Nas paredes ou ferramentas, agrupados em clusters (nuvens) e mapas, converge para lá tudo o que temos, resultados oriundo das mais diferentes técnicas aplicadas. Os mapas podem ser em estrela, hierárquicos, radiais, em rede, na forma que melhor representar o entendimento. O meio mais comum são postits ou cards, coloridos ou com selos, eu os colo com fita crepe;

Personas, Empathy Canvas e Value Proposition Canvas – São técnicas úteis para mapear e entender o melhor possível nossos diferentes clientes, usuários ou público alvo. Exercício de empatia essencial para perceber como ele pensa, o que ele sente, como se posiciona, buscando materializar suas dores, ganhos, percepções e expectativas em relação ao nosso projeto ou assunto.

Workshop de Cocriação, pretotipação, prototipação – Dinâmica única ou sequência de encontros reunindo o melhor mix possível de personas, posto que o mix de perfis garante diferentes prismas e bagagem em meio a um processo de ideação e modelagem. Construção ou desenho de Mocks, sucata, prototipação, UX Dojo, etc, em ambientes e dinâmicas descontraídas, divertidas, com com foco, liberdade com responsabilidade, é sucessivamente aproximar-se da borda do caos e retornar com opções e soluções.

Validation Canvas e Validated Learning – Exemplos de artefatos que auxiliam no planejamento dos processos ágeis de validação de hipóteses, uma forma de organizar e explicitar o necessário esforço de confirmação de premissas, restrições, riscos, oportunidades, tudo o que hipotetizamos na maioria das outras técnicas aqui listadas.

Teatralização e StoryTelling – Uso de recursos cênicos ou literários com o objetivo de materializar situações com foco em aumentar a empatia, exercícios em que um estudo e entendimento sobre uma persona pode ter alguém que represente o mesmo em certas situações. Assim podemos apresentar com detalhes nosso entendimento, podemos fazer simulações, exercitar AS IS e TO BE, há uma infinidade de oportunidades e possibilidades.

O link abaixo tem um dos livros mais conhecidos em formato slideshare, pode ajudar para dar uma folheada e decidir se vale a pena comprar ou para pinçar algum tópico mais aprofundado.

3 comentários sobre “Mais uma carta aberta sobre Design Thinking

  1. Jorge,
    Quando leio teus artigos, sempre lembro das minhas aulas de rede, quando o professor ensinou sobre “broadcasting”: é como lançar um pacote na rede, pra que todo mundo receba a informação.
    Eu sempre sigo teu exemplo e penso da mesma forma: sou desapegado às coisas que aprendo e multiplico tudo que eu sei.
    Um abraço.

  2. Pingback: De Taylor a James Shore, de Deming a Eric Ries | Jorge Horácio "Kotick" Audy

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