Agile exige menos passionalidade e improviso, mais negociação

Em implantações me surpreendo com a abordagens de bons profissionais que se frustram e indignam após os primeiros sprint não solucionarem problemas acumulados por anos. Ao agilizarem-se. alguns desenvolvedores passam a sonhar e exigir nada menos que o estado da arte, eliminação dos débitos técnicos, automação, esquecendo das curvas de aprendizado de todo o time e organização.

O brasileiro é 100% latino em sua passionalidade, deixando para pensar e se posicionar no improviso, isso faz com que muitas reuniões de retrospectiva destinadas a negociação sejam tão ricas quanto infrutífera em seus planos de ação e resultados, pois as vezes discutimos algo durante a dinâmica mas no dia-a-dia o que pega mesmo são outras coisas, as vezes olhamos para o lado errado.

olhando para o lado errado

Nossa passionalidade e improviso nos geram dificuldades para diferenciar e priorizar diferentes causas, efeitos e placebos. Creio que a fonte disso é porque estocamos dificuldades e problemas por anos, mas quando nos delegam sermos mais auto-organizados não temos um backlog racional de sonhos e necessidades, exigimos do PO algo que não fazemos, casa de ferreiro e espeto de pau.

Melhoria também tem estratégia, MVP e backlog, assim como auto-organização é pura negociação sobre objetivos priorizados. Tem muita gente boa que acumulou anos, talvez décadas de comando-controle, frustrações e débitos técnicos, mas ao iniciar uma adoção ágil, sem querer querendo, incomoda-se porque não pode solucionar tudo nos primeiros sprints.

Aproveite suas retrospectivas para discutir soluções e não somente problemas, alternativas ao invés de ranço, elenque sonhos e necessidades, agrupe-os e estabeleça um planejamento longitudinal, lembre-se que melhoria é baby-steps, porque ao mesmo tempo o nosso foco é entrega de valor, ritmo sustentável, qualidade, valor para o negócio e inovação, o nosso papel é equilibrar tudo isso.

priorizando

Vale a pena entender algo mais sobre a Teoria da Negociação, especificamente sobre as contribuições de William Ury e David Servan-Schreiber.

Teoria da Negociação

Um dos expoente da escola de negociação de Harward é o Prof William Ury, que argumenta haver problemas comuns e frequentes no ato de negociação, começando pela falta de clareza por parte do negociador quanto a seus próprios objetivos e prioridades. Afinal, o sucesso ou não de uma negociação depende da evolução e atingimento de objetivos dos seus protagonistas.

Vejo muitos integrantes de times ágeis dispersarem em meio a débitos técnicos e questões históricas que retroagem a décadas de descontentamento e que exigirão meses de recuperação para serem atacados. Negociação não é a arte do improviso, é uma ciência de construção de objetivos, priorização, execução e resultados, lembrando que “quem tudo quer nada pode”.

negociação

Segundo William Ury, a perguntas “Por que?” pode ter respostas reativas ou evolutivas, uma delas usa “porque …” e justifica o passado e a outra “para que …” projetando o futuro. Adicionalmente o autor alerta para o risco de evitar a polarização, reducionismo ou personalização, mantendo-se no campo das ideias, de olhos abertos a cada argumento, contexto e contingências existentes.

Segundo Ury, as habilidades mais difíceis na nossa comunicação é sabermos entender e expressar nossos sentimentos e principalmente saber escutar os outros. Duas habilidades interligadas, pois saber escutar depende do quanto sabemos expressar nossos sentimentos, mostra quem somos e deles nascem o genuíno interesse sobre os problemas e sentimentos de nossos interlocutores.

Síndrome do Tudo ou Nada

O neurocientista David Servan-Schreiber ampliou a discussão sobre a nossa própria percepção de identidade como influenciadora nos rumos de nossa argumentação e negociação, inconscientemente podemos amplificar ou distorcer nossa posição quando colocados em cheque ou de alguma forma percebemos riscos a nossa auto-imagem.

Quando colocados em cheque em nossa identidade, quer real ou imaginária, podemos nos sentir vulneráveis e passar a negar tudo aquilo que deponha contra nossa auto-imagem, fragilizando-nos como negociadores, pois partimos para o que o autor chamou de Síndrome do Tudo ou Nada. Nesta condição podemos exagerar e polarizar cada vez mais nossa argumentação e oposição.

Os comportamentos percebidos nesta situação passariam a ser a negação e o exagero, comprometendo o que se espera de nós como negociadores, lembrando que todos nós assumimos a todo momento este papel, com a habilidade de discernir que nada é previamente certo ou errado e que devemos nos auto-conhecermos e com maturidade manter claro o debate de ideias e passionalidade.

Metodologias Ágeis

É preciso que tenhamos consciência que nosso cotidiano não se limita ao que é certo ou errado, mas o que é mais necessário, prioritário e factível a cada momento. Trata-se de saber que todos terão que aprender a negociar de forma transparente, que as vezes prevalecerá sua opinião e outras não, que isso não gera culpados, perdedores ou vencedores, isso gera colaboração e resultados.

Sempre é preciso ter em mente qual o momento, o quanto crescemos, o quanto mudamos para tentar fazer melhor, que errar faz parte e que aprendemos muito com isso, mas principalmente que sempre haverá coisas a fazer e melhorar, mas que a cada momento teremos que priorizar algumas em detrimento de outras, pois é impossível fazer tudo ao mesmo tempo.

Débitos históricos devem estar no nosso backlog, mas devem ser tratados racionalmente frente a tudo o mais e questionados relativo a nosso marco zero, no momento da virada ágil. Exemplo, iniciar SCRUM já reclamando que sempre foi assim e que nunca foi possível fazer algo é uma incongruência … correto seria sempre partir para negociação e planejamento baseado em valor.

Algumas coisas demoram tempo e esforço, então cuidado com o que exige sem refletir em como fazer e quantos passos exigirá, pode ser que alguém pague para ver e você descubra que não se preparou para esta possibilidade. Reclamar é fácil, difícil é planejar e negociar uma forma viável de fazer a mudança de forma evolutiva, iterativo-incremental e sustentável.

Déjà Vú, Agile Business não é só método, é gente, é Social Business!

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