Confiança e melhoria é como uma poupança

Vejo com frequência desenvolvedores novos em Agile, após um ou dois sprints, reclamando que a gerência e o PO não lhes entendem, não concordando em começar a aplicar novas práticas relativas a engenharia ágil de software. Um ou dois sprints e alguns começam a se desmotivar porque não conseguem ser ágeis do jeito que queriam, que sem uma boa engenharia é tudo mentira e engôdo.

Sério gente, já vi isso acontecer várias vezes, alguns profissionais começaram a praticar SCRUM “ontem” e tornam-se automaticamente juízes. Analisam que o cliente não os entende, que nada mudou, que só estão preocupados com o prazo, que agilidade assim é uma mentira. Sério, não estou brincando, vários chegam a estas conclusões categóricas algumas semanas após adotarem SCRUM.

Avanço metodológico também tem que ser ágil, tem MVP e principalmente precisamos ter consciência de que precisamos começar a fazer bem o mínimo e ir conquistando espaço para melhorar um pouco de cada vez. O primeiro passo frente ao cliente é nosso, assim que ele começar a entender este novo mundo, garanto que surgirão oportunidades e apoio para os próximos passos.

Senão vejamos

A TI escolheu mudar a metodologia e tem a convicção de que isso vai ser bom para todo mundo, esta decisão acontece após anos ou décadas trabalhando em modelos mais tradicionais, mais waterfall e comando-controle. É preciso algum tempo para sairmos da fase de Storming da curva de Tuckman, a prioridade deve ser aproveitar os aprendizados iniciais para que alguns resultados comecem a ser percebidos e comecemos a formar um novo modelo mental.

poupança

Acima de tudo, temos que nos conscientizar que a confiança do PO é como uma poupança, nós trabalharemos de forma iterativo-incremental para ir ganhando pontos, mostrando que tudo isso faz sentido, que de fato estamos entregando histórias de valor funcionando a cada sprint. A cada planning, review e retrospectiva ele vai se interando de outras questões, de oportunidades, é papel do SM e da equipe essa conexão e conscientização.

Porque comparei com uma poupança?

Você não chega em um banco e diz, me dá ai R$1000  porque  a partir da semana que vem vou começar a depositar um pouquinho a cada semana. É o contrário, você começa a depositar pequenos valores, que vão sendo corrigidos e com o tempo vão se avolumando e sobre os quais poderemos sacar. É um ciclo virtuoso, as vezes o PO compra a ideia desde o inicio, mas são exceção, normalmente eles precisam ver acontecer para acreditar.

Mais que isso, um banco em que você possui uma boa poupança lhe facilitará o crédito, estabelece-se um modelo de reciprocidade, dada a confiança e boa relação de negócios. Com o PO é igual, ele lhe dará tanto crédito quanto você estabelecer uma boa relação e gerar bons negócios para ele, se ele começar a receber software funcionando e de valor a cada duas semanas, começará a receber elogios de seu diretor e começará a confiar ainda mais em você.

Endereçando

Enquanto isso, junte argumentos, exemplos, faça pequenas provas de conceito e promova oportunidades voltadas à gestão do conhecimento, alinhe com os seus pares de outras equipes, alavanquem alguns cases e traga exemplos internos de boas práticas de sucesso. Estabeleça comunidades de prática para trocas de experiência e compartilhamento de conhecimento, construa uma espiral crescente de pequenas mas consistentes melhorias e avanços.

Não espere sanar décadas de práticas e débitos técnicos em algumas semanas, ouço muitos desenvolvedores exaltados dizendo que estão fartos de não terem a oportunidade de fazer melhor. Esquecem de ver o meio copo cheio, que a algumas semanas atrás iniciou um processo de mudança e que ela envolve questões culturais e de confiança que precisam ser estabelecidas em outros patamares. Isso leva tempo e se exaltar, gerar um clima de insatisfação, não ajuda em nada, pelo contrário, só compromete e posterga seu objetivo.

Finalmente, temos que aprender a ter estratégia, pois pedir e ficar reclamando é um resíduo histórico dos tempos de comando-controle, onde nos restava apenas reclamar. Agora a responsabilidade é nossa em gerar argumentos, aprender a negociar, gerar fatos e aplicar agilidade na agilidade é nossa, pois a melhoria é iterativo-incremental também para o processo e suas boas práticas.

O importante é estarmos melhor que mês passado e lembrar que melhoraremos um pouco mais no mês que vem!

 

4 comentários sobre “Confiança e melhoria é como uma poupança

  1. “Não espere sanar décadas de práticas e débitos técnicos em algumas semanas…”

    “…questões culturais e de confiança que precisam ser estabelecidas…”

    Para mim, estes são os pontos chave, mais delicados e mais complexos da mudança.

    Pode-se comparar a trocar de um teclado QWERTY para um DVORAK. Servem para fazer a mesma coisa mas você já está acostumado ao primeiro, tem resistência inicial em testar o segundo.

    Tem que pensar que você está começando com uma coisa melhor, não com uma coisa (apenas) nova.

    P.S. Foi só uma analogia, eu não uso DVORAK. 😉

    • Oi, ótimo exemplo o do teclado, temos que quebrar um paradigma e sair da zona de conforto, tentar e analisar conscientemente, mas ao final pode ser ou não melhor para nós.
      Um Feliz 2015 aí tchê!

  2. Kotick, eu vi esse mesmo padrão em BI, o que me leva a supor que “modas” são compradas pelo valor de face, sem consciência (por parte do comprador, óbvio) das consequências implicadas. Cansei de ver times e empresas “comprarem BI” e, depois de um tempo (ocasionalmente muito tempo – anos) desistirem porque “a realidade é bem diferente”. Em todas essas ocasiões, sem nenhuma exceção, eu pude constatar que a falha nascia na abordagem e nas pressuposições equivocadas.

    Esse tipo de similaridade é preocupante, na minha opinião, pois sugere que empresas são, inerentemente, guiadas por gente carente de visão e informação. O que você acha?

    A história com o BI tem um final triste: boas idéias, com implementação amadora, são trocadas por idéias furadas (com o mesmo amadorismo na implementação), mas novas e com apelo. Quando essa novidade dá errado, compram a próxima, e assim por diante até o ponto da indiferença. A empresa sempre sai perdendo, e nunca consegue se livrar dessa rasteirice, nunca soerguendo-se ao próximo degrau no seu crescimento. Vide o caso do BigData, a bola da vez, e Data Discovery, uma moda quase contemporânea (nenhuma das duas coisas existem,) e MDM, que existe há décadas e nunca deu em nada muito concreto. Triste.

    Acho que a solução, agora pensando pelo lado positivo, está em jogar a toalha do conhecimento, assumir a própria ignorância, e buscar quem entenda, quem saiba fazer, quem conheça o caminho e as armadilhas. E depois, claro, abdicar dos impulsos de questionar o conhecimento validado pela experiência. (Me vêm à mente o quadrinho do Dilbert em que o gerente pede a ele, Dilbert, que valide a opinião do advogado formado em Harvard, porque “aquilo não parece certo”. Kkkkkk)

    • A vantagem do Agile com a participação ativa de todos os stakeholders é que o furo vai ser percebido 1 ano antes e com 20 milhões a menos de desperdício.

      Mas não posso deixar de reiterar o post da teoria da agência, pois a cada troca de solução mágica um gerente acaba promovido a diretor e um diretor a VP … no mínimo rola um bônus.

      No fundo os diretores e gerentes querem deixar a cada ano sua marca, a maioria nem é mal intencionado, mas na pressa por mostrar serviço e ganhar seus bônus, metemos os pés pelas mãos.

      c’est la vie!

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